O pioneiro Pedro Batista Neves, conhecido como Pedro Paz, nasceu em 5 de agosto de 1944, na região da Pitanguinha, município de Pitanga. Filho de João Batista e Laurinda Moreira, ele é pai de quatro filhos: Emerson Luiz, Marisele, Marinele e Petrolina. Tem cinco netos e duas bisnetas.
Paraná Centro – O senhor sabe como seus pais vieram para Pitanga?
Pedro Paz – O tronco da minha família é de São Paulo. Sobrenomes Paes Leme e Paes de Almeida e foram bandeirantes. Eles moravam na região de Itapeva e minha família é de lá. Meu pai morou muitos anos em Imbituva e de lá veio para Pitanga, junto com a minha mãe.
Paraná Centro – E eles se conheceram lá em São Paulo?
Pedro Paz – Sim, meu pai morava na localidade de Bom Jardim, em Imbituva.
Paraná Centro – Sabe porque eles vieram de São Paulo para o Paraná?
Pedro Paz – Bem ao certo eu não sei, mas imagino que encontraram alguém que falou que aqui era bom. Sei que eles vieram de carroça e estavam em quatro irmãos, meu pai e mais três. Gastaram quase dois meses na viagem. Meu pai ficou num lugar chamado Rio do Meio, uma tia minha, que também veio casada, foi morar na comunidade de Cinco Encruzilhadas; outro tio foi morar na comunidade do Borboleta e o outro se mudou para Roncador. Acredito que eles chegaram na região no ano de 1940. Meu pai veio para trabalhar na agricultura, mas ele também trabalhou como barbeiro, profissão que exerceu até falecer.
Paraná Centro – Que lembranças tem da sua infância?
Pedro Paz – Eu nasci quando meu pai veio morar na Pitanguinha, meus familiares ainda moravam no Rio do Meio, mas me criei na Pitanguinha. Quando eu tinha 14 anos, fui trabalhar no fórum para ajudar a fazer títulos de eleitor e os preenchia à mão.
Paraná Centro – Como surgiu a oportunidade de trabalhar no fórum?
Pedro Paz – Uma professora, que trabalhava no fórum, me levou para trabalhar lá, pois eu tinha letra boa. Eu digo que ela foi como uma segunda mãe para mim, eu morava do lado da casa dela e era muito amigo do filho dela, que tinha quase a minha idade e ela ajudou a me criar. Acho que consegui esse emprego no fórum porque eu estudava muito desde os 7 anos de idade.
Paraná Centro – Que ano o senhor começou a trabalhar no fórum?
Pedro Paz – Acredito que era o ano de 1959. Nessa época, a Comarca de Pitanga ia desde a divisa com Turvo até o Guaretá, atualmente município de Lunardelli, na beira do Rio Ivaí. Por um período, inclusive, o Guaretá era um distrito de Pitanga, na época não havia Ivaiporã, Jardim Alegre, Lunardelli. Tinha o Guaretá e um tal de São João da Alcalina, que hoje é o distrito de Placa Luar, em Jardim Alegre. Na época, em Guaretá, tinha um escrivão chamado Casemiro Pazio, que era oriundo do município de Cândido de Abreu.

Paraná Centro – Como era o trabalho de emitir os títulos eleitorais?
Pedro Paz – O título de eleitor era escrito à mão. A pessoa que queria o título tinha que preencher um requerimento para provar que sabia escrever, tinha que colocar o nome, estado civil, idade e endereço. As mulheres já tinham direito de votar, mas não tinham muito interesse em tirar o título, eram mais donas de casas e ficavam muito subordinadas ao marido e aos filhos e também os pais mandavam muito naquela época. Mas eu ajudei a fazer título de eleitor por uns seis meses, depois passei a ajudar no cartório do Sadi, dentro do fórum. Em 1962 fui nomeado distribuidor do cartório no fórum.
Paraná Centro – Quais eram as principais demandas no cartório naquela época?
Pedro Paz – Naquele tempo haviam muitas ações possessórias e briga de terra. Era a época da colonização de Ivaiporã e da Companhia Ubá. Os oficiais saíam de Pitanga e eu ia acompanhar as ações de reintegração de posse. Os colonos eram despejados e eu fazia os autos de manutenção, emissão e reintegração de posse, além do sequestro da madeira. Isso foi até o ano de 1963, quando foi criada a Comarca de Ivaiporã.
Paraná Centro – O que o senhor sabe sobre o início da colonização de Pitanga?
Pedro Paz – Pitanga começou com uma trilha de pessoas que entraram na região para a criação de porcos e gado e também para a extração de madeiras, especialmente pinheiro. Na época, eles tocavam as “porcadas” a pé até Ponta Grossa. Aqui em Pitanga era um ponto de parada do pessoal que fazia esse trabalho, havia quatro pousadas na cidade, tanto que a rua principal de Pitanga foi construída no entorno da estrada por onde passavam essas comitivas. Pitanga começou a receber muitas pessoas de Ponta Grosa, Prudentópolis, Imbituva, Irati, além de alguns paulistas e mineiros. Acredito que os primeiros moradores começaram a chegar em 1880, principalmente de Prudentópolis e também descendentes de europeus.

Paraná Centro – O senhor trabalhou no cartório do fórum até que ano?
Pedro Paz – Eu fui nomeado em 1962 no cartório distribuidor e fiquei no fórum de Pitanga até 1970 e fui titular de todos os cartórios da sede da comarca, inclusive de Nova Tebas, à exceção do cartório de imóveis, mas nunca pude ser o dono do cartório, pois meu sogro e meu cunhado eram donos de cartório. Mas eu atuei em praticamente todos os cartórios de Pitanga. Cheguei a fazer audiência sozinho com o promotor e o advogado, ouvindo a testemunha. Naquela época, era permitido e também fui nomeado como titular do tabelionato e do cartório eleitoral. Quando faltava gente ou tinha uma vaga, eu era indicado. Em 1970, peguei uma licença prêmio e, nessa época, estava sendo criada a Comarca de Guaraniaçu. Um promotor que tinha atuado em Pitanga me convidou para ir até lá para ensinar as pessoas nomeadas como titulares como deveriam trabalhar no cartório e fiquei um ano lá ajudando nessa parte, estando licenciado do cartório de Pitanga. Quando retornei em 1970, o cartório em Nova Tebas estava com problemas e eu fiquei quatro anos trabalhando no cartório de lá, até que ele acertou a situação. Voltei para Pitanga e fiquei mais dois anos e depois saí.

Paraná Centro – Que atividade o senhor realizou depois do cartório?
Pedro Paz – Em 1976 eu fui para Ponta Grossa, onde morava meu irmão, fiz o concurso para Polícia Rodoviária Federal, para o Banco do Brasil e o vestibular do curso de Direito do UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa) e fui aprovado nos três. A concorrência do vestibular era de 18 por 1 e eu passei sem ter feito cursinho ou me empenhado em estudar. Eu sempre li muito e acompanho as notícias. Lá em Ponta Grossa, comecei a trabalhar no cartório de um primo do Sadi Messias e fiquei lá por três anos. Até que eu fui convocado para assumir o concurso da Polícia Rodoviária Federal em Ponta Grossa, mas eu trabalhava na rodovia BR-277 até Cascavel.
Paraná Centro – Por quanto tempo o senhor ficou na Polícia Federal?
Pedro Paz – Fiquei pouco tempo, cerca de um ano. Porque também fui convocado para trabalhar no Banco do Brasil e, como meus filhos eram pequenos, surgiu a oportunidade de voltar para Pitanga para trabalhar no banco, e resolvi aceitar; mas depois de um tempo, acabei me arrependendo.
Paraná Centro – Por que o arrependimento?
Pedro Paz – Porque eu estava no quarto período de Direito em uma das maiores faculdades de Direito do Paraná, parei de estudar e vim para o banco ganhando menos no papel, além de ter que trabalhar muito mais. Aqui a gente saía quase meia-noite de segunda-feira a sexta-feira.
Paraná Centro – Qual a principal demanda que existia na agência de Pitanga?
Pedro Paz – Na época era o financiamento de lavoura. Em 1981, nós fizemos mais de 3,8 mil contratos. Todos datilografados na máquina de escrever em três vias. Só começou a diminuir a partir de 1985, quando o sistema começou a ficar automatizado. E eu ainda abri escritório em Palmital, Altamira do Paraná, Nova Tebas e circulava esses locais com um Fiat 147. Como eu era de Pitanga e conhecia muita gente, as pessoas acabavam me procurando, pois, nessa época do concurso, entraram muitos funcionários vindos de fora e como eu lidava diretamente com a carteira rural, muita gente vinha me procurar. Nessa época de financiamento, chegamos a atender entre 200 e 300 pessoas no banco. Essa parte da carteira rural era feita no segundo andar e tinha gente que ficava fora da agência, porque não cabia mais.
Paraná Centro – Quanto tempo o senhor trabalhou no Banco do Brasil?
Pedro Paz – Fiquei 11 anos no banco. Quando o Fernando Collor entrou, ele queria enxugar a máquina e começou um processo de demissão voluntária e mandar gente embora e, nessa época, acabei saindo.
Paraná Centro – Então o senhor deixou a faculdade, por que queria morar em Pitanga?
Pedro Paz – Eu já tinha esta casa em que moro atualmente, ou seja, ficava a uma quadra e meia da agência, eu estava com os três filhos pequenos aqui e com o trabalho de policial rodoviário ficava muito tempo fora de casa.
Paraná Centro – Como era o trabalho de policial rodoviário no final dos anos 70? Como era o movimento da 277 nessa época?
Pedro Paz – Em 1979 e 1980, tinha a construção Itaipu Binacional. Rodavam por essa rodovia mais de 1 mil caminhões todos os dias e eles tinham horário para sair de Almirante Tamandaré e chegar a Foz do Iguaçu. Os motoristas não tinham muito pudor, jogavam os caminhões em cima dos carros pequenos e os motoristas tinham que sair da frente. Dava muito trabalho para nós. Eu atendi dois acidentes muito feios nessa época. Além disso, a 277 recebe caminhões que vêm do Mato Grosso, Argentina, Chile, Paraguai e vão com destino a Curitiba e ao porto de Paranaguá. Cascavel era uma cidade nova ainda e quando começou a entrar a soja, aí o movimento aumentou muito.
Paraná Centro – Depois que deixou o banco, qual atividade desempenhou?
Pedro Paz – Em 1990 eu tive um processo de separação. Tinha pedido uma transferência no banco e iria trabalhar no Mato Grosso, perto da divisa com o Pará. Bem nessa época, o Collor assumiu e eu resolvi que deveria sair do Banco do Brasil. Fui trabalhar trazendo mercadorias do Paraguai e também do Brás em São Paulo e revendendo na região. Eu fazia a rota entre São Paulo até Cianorte, deixava o carro por lá e fazia a linha de Ubiratã, Campina da Lagoa, Altamira do Paraná, Pitanga e Guarapuava, onde eu trazia as coisas para vender. Os produtos que mais vendiam eram calça, botina, chapéu e camisa para agricultor.
Paraná Centro – Nessa época como era o Paraguai?
Pedro Paz – Na verdade, eu conheço o Paraguai desde 1966, nessa época não tinha shopping, nada, haviam dois barracões de cerca de 180 m² e os produtos ficavam no chão. Quando saí do banco, não pensei duas vezes e fui trabalhar com produtos do Paraguai.
Paraná Centro – E naquela época já compensava?
Pedro Paz – Compensava. Quando começou o plano real, não compensava mais. Eu ganhei muito dinheiro com a venda de cigarros. Era mais de 300% de lucro. Eu abastecia muitos fornecedores. Para alguns, eu trazia até 600 pacotes por vez. Mas andei perdendo mercadoria e veículos. Fiquei trabalhando com isso até 1997, quando comecei a prestar serviço para Petrobras aqui em Pitanga.
Paraná Centro – Qual era sua função na Petrobras?
Pedro Paz – Quando eles começaram a sondagem do gás na Barra Bonita, eu comecei a trabalhar como gerente de uma empresa que tinha 75 carros locados para a Petrobras. Na época, 85 pessoas vieram de fora para trabalhar nessas sondagens. Eles trabalhavam duas semanas e descansavam duas. Nessa folga, eles voltavam para as cidades de origem.
Aqui em Pitanga era um ponto de parada do pessoal que fazia esse trabalho, havia quatro pousadas na cidade, tanto que a rua principal de Pitanga foi construída no entorno da estrada por onde passavam essas comitivas.”Pedro Paz
Paraná Centro – Qual era a expectativa desse pessoal em Pitanga?
Pedro Paz – Eles vieram atrás do gás, em 1972; a Pauli Petro descobriu uma reserva de gás na região do Rio Vorá. Um dos engenheiros que trabalhou nessa primeira prospecção foi na Petrobras, depois que a Pauli Petro fechou, e comentou que aqui em Pitanga havia uma reserva de gás. Nisso, a estatal mandou um pessoal na Barra Bonita para encontrar estes pontos de gás. Nessa época, várias empresas vieram ajudar a definir o tamanho da reserva do gás. Nós chegamos a trabalhar em 23 municípios dessa região, mas só foram encontrados dois poços de gás. Na época, a Petrobras achou que não compensava, pois teria que fazer um gasoduto para levar o gás até Araucária. Eu trabalhei com isso até o ano de 2002, quando a Petrobras parou com as atividades aqui. Depois disso, fui gerente da Churrascaria Marcão por dois anos. O restaurante funcionava 24 horas e tinha quase 70 funcionários, tinha duas cozinhas para atender os clientes e era um local de parada de ônibus. Mas depois de um tempo, o movimento caiu, ele vendeu e eu saí. Depois voltei para o Paraguai e parei de trabalhar a partir de 2009.

Paraná Centro – Mas o senhor também jogou futebol em Pitanga?
Pedro Paz – Sim, fui titular do time do Sertanejo e joguei de 1960 a 1964. Nós disputávamos o campeonato da Liga de Guarapuava e jogávamos contra uns 12 times de toda a região. Para ter ideia da fama do time na época, fomos convidados para inaugurar o estádio em Marilândia do Sul, que chamava Araruva. Depois formamos o Grêmio e continuamos disputando o campeonato em Guarapuava e conseguimos ser campeões em uma competição com outros 12 times, em 1967. O campeonato, além de times de Guarapuava, tinha de Laranjeiras do Sul e Prudentópolis. Eu jogava como ponta de lança e ponta direita. Fui convidado para ir jogar em Clevelândia.
Fonte: Jornal Parana Centro
Autor: Aldinei dos Passos Andreis 22 de jan. de 2025
